A Armadilha Surpreendente Que Fez Milhares de Motoristas Perderem Tudo.

A percepção de que motoristas de aplicativo são empreendedores autônomos mascara uma realidade de jornadas extensas e exploração, uma visão mais precisa de sua atividade no Brasil. Tal análise é desenvolvida pelo cientista político Leonardo Sakamoto em sua obra “O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho”, uma publicação de 243 páginas da Editora Alameda. Escrito em colaboração com o jornalista Carlos Juliano Barros, o livro sustenta que os trabalhadores mediados por tecnologia foram, na prática, iludidos. Em uma entrevista concedida à Agência Brasil, Sakamoto foi direto: “Eles caíram no conto do vigário de que são empreendedores”. O livro teve seus lançamentos em São Paulo e Brasília na semana anterior e foi tema de uma palestra dos autores na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com uma sessão de autógrafos agendada para 8 de dezembro no Rio de Janeiro, no Jardim Botânico.
Para o pesquisador, o problema central para esses profissionais reside na distribuição desproporcional dos ganhos, com as plataformas digitais retendo uma parcela significativa dos recursos e remunerando motoristas e entregadores abaixo de suas reivindicações. Adicionalmente, a ausência de direitos trabalhistas impede que esses indivíduos contribuam para a previdência, deixando-os desprotegidos em caso de infortúnios ou para a futura aposentadoria. Contudo, a obra aponta que uma parcela dos trabalhadores passou a responsabilizar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) por suas dificuldades, como se a legislação fosse um obstáculo às oportunidades e à valorização profissional. Sakamoto discorda dessa visão, afirmando que “a culpa do salário baixo, na verdade, é do patrão. A culpa de trabalhar muito, na escala de seis para um, é do Congresso Nacional”.
Sakamoto argumenta que o que ocorreu foi um ataque sistemático aos direitos trabalhistas, que acabou por influenciar a população. “Influenciadores e políticos culparam a CLT. O problema não são as regras”, ele pontua. A publicação recém-lançada compila e atualiza reflexões baseadas em textos que os autores produziram nos últimos quatro anos para os portais “Repórter Brasil” e “UOL”, abordando a exploração no universo do trabalho. Segundo a avaliação de Sakamoto, a precarização se manifesta em diversas categorias, com um desrespeito generalizado às leis vigentes. Ele identifica uma crescente rede de preocupações sobre o tema, que inclui os riscos associados às ferramentas de inteligência artificial e a práticas que fragilizam os trabalhadores, tais como:
- A contratação de pessoas físicas como se fossem pessoas jurídicas (a chamada “pejotização”).
- Relações de trabalho disfarçadas de prestação de serviço, como o “freelancer fixo”, que possui deveres de empregado, mas nenhum direito.
O autor também destaca que o modelo de desenvolvimento de grandes conglomerados ainda não eliminou formas arcaicas de exploração, como o trabalho análogo à escravidão e o emprego de mão de obra infantil. Para ele, a sociedade vive um momento histórico crucial para assegurar a dignidade no ambiente laboral. “A gente ainda não foi capaz de erradicar a escravidão contemporânea no Brasil. Temos um pé apontado para a frente, um apontado para trás e os dois presos na lama”, lamenta o pesquisador. O livro contextualiza como essas violações coexistem com as tecnologias avançadas de hoje, defendendo que o progresso tecnológico não se traduz automaticamente em melhores condições de vida. “A tecnologia não representa necessariamente a melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores”, afirma Sakamoto.
Apesar disso, o autor acredita que a tecnologia possui um duplo potencial. “Nesse momento de transformação, a tecnologia pode ser algo que vai precarizar ainda mais a vida dos trabalhadores. Mas pode, na verdade, garantir que a gente consiga também mobilizar o pessoal”, ponderou. Ele ressalta que as reivindicações e a mobilização dos próprios trabalhadores são essenciais para reverter o quadro de exploração. No caso específico de motoristas e entregadores de aplicativo, a luta corrente é pela definição de um valor mínimo para as corridas e por condições de trabalho que sejam acordadas com as categorias. Após o enfraquecimento dos sindicatos com a reforma trabalhista de 2017, esses profissionais têm utilizado as redes sociais como ferramenta de organização. Sakamoto critica o discurso empresarial recorrente sobre o excesso de direitos no país: “Todo dia aparece um empresário falando que o Brasil tem direitos demais. Isso é uma bobagem. Outros países também têm uma série de proteções aos trabalhadores”.
O pesquisador conclui que o país enfrenta uma disputa de forças antagônicas no campo profissional. De um lado, o Estado possui uma estrutura robusta de proteção, com a Justiça do Trabalho e o Ministério Público do Trabalho (MPT). Do outro, persiste um pensamento escravagista infiltrado nas três esferas de poder. Como exemplo, ele cita a reação negativa da elite financeira à PEC das Domésticas, que, apesar de garantir direitos fundamentais a um grupo majoritariamente composto por mulheres negras, foi recebida com duras críticas.


